sábado, 16 de novembro de 2013 - 0 comentários

Carta aos pais...

A meados de Janeiro decidi escrever uma carta aos meus pais para clarificar as coisas e ver se realmente as coisas se compunham um pouco (mas não) a única reação deles foi pegar na referida carta e atirá-la para cima da minha secretária, estava com esperança das coisas melhorarem...mas pelos vistos mais uma vez a vida prega-me uma partida...








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Queridos pais,
Há coisas que são difíceis de se dizer, de serem escritas, de ser transmitido para o papel o que nos vai na alma, o que sentimos cá dentro, são complicadas de se entender e difíceis de se perceber. Devem estar a perguntar-se o porquê desta carta, o porquê deste texto todo, o porquê de eu ter escolhido ser assim desta forma e não de outra (…) porquês alguns com resposta outros sem, na vida há coisas verdadeiramente inexplicáveis, e bastante surpreendentes!
Sinto, sinto que tenho de dizer-vos, tenho algo a revelar-vos, algo que custa muito dizer-se, algo que está aqui algures entalado na garganta e que dai não saí, durante anos e anos vivi uma vida enclausurado pelo medo, que me estava a empurrar e a apagar a minha própria vida, um medo enorme, medo de ser aquilo que sou, o medo que é muitas das vezes o muro, o inimigo, aquele que nos faz pensar vezes sem fim a decisão entre um simples 'Sim' e 'Não', é aquilo que nos impede de sermos felizes da maneira que somos, impede-nos de fazermos uma série de coisas que podíamos ter feito, ou fazer mas...que pelo grande medo de tentar e de falhar acabamos por desistir de algo, talvez um sonho, uma ilusão, uma vida, uma história...não sei, não faço a mais plena ideia…à medida que o tempo passava ia observando que ia destruindo o meu sonho, aos poucos e poucos, mesmo não querendo …. mas felizmente a vida muda, é feita de mudanças, de escolhas, de paixões, de derrotas mas também de batalhas, de lutas mas também de fracassos, de medo mas sobretudo coragem, existem algumas, muitas coisas que necessitam de saber sobre mim,  algo que tenho de vos contar de uma vez por todas, basta de mentiras, de ilusões, de dar a volta, basta….acabou-se, é decididamente o fim!
Sinto porém que, por vezes nós podemos ter tudo, mas tudo, tudo aquilo que os outros pensam que é o essencial para nos sentirmos bem e felizes, mas de que serve ter a maior fortuna do mundo, o armário cheio de roupa cara, tudo do melhor que existe, e simplesmente nada nos satisfaz, nada capta a nossa atenção, pensamos e voltamos a pensar, o que será que está errado connosco?, depois de tanto pensar e divagar por mundos imensos, vadiando por lugares, por coisas jamais esquecidas, por recordações e momentos bem passados, por histórias, e sítios conhecidos... talvez aquilo que nos falte pode ser uma simples coisa que não conseguimos ver, mas sentimos que é realmente a grande falta de um sentimento, o amor, sim  sabem o que isso é?, uma palavra tão pequena, mas com tanta mistura de sentimentos e emoções, um mar e um horizonte longínquo.

Não falo de amor-próprio, mas sim de amor por uma pessoa, um amor impossível, algo proibido que está encoberto por um medo tão grande, por uma dor tão lenta mas que nos mata aos poucos e poucos, e ...no fim o sofrimento acaba por se tornar maior do que o sentimento, pois este tipo de amor é  algo muito difícil de se realizar, praticamente impossível, na melhor das hipóteses. Para quê impor restrições ao amor, não importa o sexo, raça, religião, ... pois amor é amor seja lá como for! Amar é o sentimento mais belo e mais puro que existe, já pensaram no que seria de nós sem o amor?
Com a entrada neste novo ano 2013 prometi a mim próprio que passaria a ser o meu verdadeiro ‘EU’ sem problemas quaisquer, pois já estava mais do que na altura certa de o fazer, ainda mais, eu sempre vivi escondido de tudo e todos, vivia como se fosse um boneco era o que as pessoas queriam que eu fosse, e não ‘EU’ mesmo como tal deveria de ser… e isso foi adiando dia após dia a minha revelação que estou prestes a fazer enquanto pessoa neste mero documento escrito por mim, com um valor inestimável. Finalmente este ano decidi que não poderia ter mais medo de mim próprio de uma vez por todas, pois esse medo todo já me estragou a demais estranha vida que levo, o dia-a-dia com muitos sobressaltos, dissabores, algumas alegrias acompanhadas de uma grande dor, angústia e sofrimento, todos os dias, todas as noites…calculo que ninguém deve fazer a mais plena ideia, do que eu possa estar aqui a falar (…) perfeitamente normal!
Há coisas que sempre escondemos, durante uma vida, durante anos e anos sem fim, e finalmente …. chega a um determinado ponto, em que temos de parar e pensar, pensar em nós mesmos esquecendo o que vai à nossa volta,  o que será do nosso futuro se continuar-mos assim neste de estado de nostalgia, de solidão, de revolta, de angústia, de isolamento do mundo, não o nosso próprio mundo aquele que criamos, em que tudo parece ser perfeito e só acontecem coisas boas, em que o mal é inexistente, mas sim o verdadeiro aquele bem real que existe lá fora,  tão negro, tão sujo, tão horrível, tão duro, escuro, pobre de luz, de vivência, de espírito, de alma, de pessoas boas, carinhosas e afectuosas, de amor, de paixão, de paz (…) esse mundo pode ser aquele em que pensamos estar inseridos mas a grande verdade é  que não nos enquadramos de maneira nenhuma nele, por “sermos diferentes”, diferentes das outras pessoas, nós acabamos por ser tudo sem querer ser nada!
Coragem, uma grande palavra com um significado incrível, é um acto que muito poucos têm, eu tenho e sinto um grande orgulho disso, sei que são bem poucos os que conseguem obtê-la. A certa altura da minha vida, … senti algo a chamar-me uma espécie de desafio, foi bem-vindo, mas algo me inquietou interrogando-me, que tipo desafio será este?, uma espécie de autoconhecimento, talvez, e  muito provavelmente, o mais certo… pois tudo isso acontece a todos os jovens, numa fase, aquela em que  se começa a vivenciar a adolescência. Como quem não quer a coisa, decidi abrir a porta e entrei, instalando-me confortavelmente, quando vi do que se tratava assustei-me, fiquei passado, chorei noites sem fim, não pensei que eu pudesse ser assim, mas depois de questões atrás de questões, do tipo interrogatório sem fim, ainda tive o bom senso de não mandar embora este grande desafio, afinal porque não conhecer melhor essa parte de mim? Afinal nunca coloquei de parte a sua chegada à minha vida. Então aceitei o desafio, com um ‘Sim’ e confiança! Levou o seu tempo, processo de muita burocracia…. até que por fim depois da tempestade veio a bonança, e em todos os momentos que tive, consegui perceber aos poucos o que era isto novo que eu sentia, e que nome poderia lhe dar, que novo sentimento era este...na altura ainda me lembro de parecer que o mundo está diferente, e que eu não fazia parte dele, acho que o  mudou mesmo foi os olhos com que passei a ver mundo, depois de crescer um bocadinho mais e passar por um infinito sofrimento, quase sem um fim esperado. Não sei como hei-de vos dizer isto…é algo que eu já sinto desde algum tempo, é algo que já nasceu comigo, só que depois à medida que ia crescendo é que fui descobrindo aos poucos e poucos, quem realmente eu era… não é simples nem fácil de dizer-se isto, quanto mais, quando sabemos que temos um ambiente desfavorável à nossa volta, mas vou ter de vos dizer, sendo assim vou directo ao assunto, eu não quero-me voltar a sentir mal, por esconder tudo, acabou-se estou farto de esconder, de viver uma vida numa mentira, numa pura ilusão, uma vida que nem minha é, é apenas uma vida que as pessoas há minha volta querem que eu tenha à força, mas não vou permitir tal coisa, é errado se eu o fizer, e muito… depois de tanto pensar e divagar em lembranças e recordações de quando descobri quem realmente eu era, observo que não devia ter-me limitado ao medo e à solidão, e ao sofrimento, ano após ano sempre a sofrer pela mesma razão (…) agora, neste vejo que está mais do que na altura de ser como sou, e não como as pessoas querem, não me importa a opinião das pessoas, afinal é uma opinião não vai muito para além disso, opinião…eu sei bem aquilo que sou, não necessito que mo digam cara a cara, ouvir coisas inadmissíveis de ser ditas a um filho e a qualquer outra pessoa com a mesma situação, custa ouvir-se certas coisas vindas da boca de quem nos criou durante anos, de quem lutou pela minha sobrevivência e isso magoa profundamente cá por dentro… mas sei que sou um lutador e dotado de uma força superior, digo-vos não vai ser nem tu, mãe, nem ele que vão dar cabo da minha felicidade… hoje as criticas não me abalam pelo contrário só me fazem ainda mais forte, o mais importante sou EU, EU e a minha felicidade, não me interessa, não quero saber o que vão pensar de mim por ser como sou, estou de consciência tranquila, não cometi nenhum crime, não matei ninguém, não fiz algo de errado. Eu estou sossegado, em paz, apenas não quero sentir que passou mais um dia de omissões, estou cansado não posso mais enganar toda a gente à minha volta, acho que todos têm o direito de saber quem eu realmente sou. Prisão. Opressão. Correias enrolam-se à minha volta. E, eu nada posso fazer sem ser vê-las prender-me. Milímetro a milímetro, apertando, e eu não me agito. Deixo-me estar, pensando se devo ou não dizer a frase que me libertará ou condenará à prisão. E, enquanto espero, vou morrendo asfixiado. Peço espaço, tempo; escasseia. Vou morrendo, a pouco e pouco. Arrisco-me, no meio de tanta indecisão, a ficar asfixiado, a não conseguir dizer a frase.
Eu… sou um homem capaz de amar outro homem, "Sou gay". À volta de uma frase tão simples agora de ser dita, que antes era o mais completo terror, por eu ter crescido numa sociedade tão estereotipada e preconceituosa, e ser-me ensinado que era um pecado, contra as leis da natureza e errado, agora esta frase tornou-se tão compreensiva, não tenho medo algum de dizê-la se me perguntarem, porém ainda com ela está tanta agonia... e associada à mesma a pior fase do egoísmo, "Não me faças isso!”, e sim é isso mesmo que está escrito mais acima que eu sou, com todas as letras, era esse o meu segredo que já vinha guardando há cerca de cinco anos, tencionava guardá-lo durante mais uns quantos, ia disfarçando aqui e ali, para ninguém notar nada, mas nada disso foi possível… Pois tu, um dia mãe descobriste quem eu sou, por tanto invadires a minha privacidade, por não me deixares viver só no meu canto, tu nunca respeitaste o meu espaço, não me deixas ficar com a porta do quarto fechada, ter a chave do meu próprio quarto, não bates à porta antes de entrar, condutas demasiado básicas que deveriam os dois saber …. Bem, o meu quarto é o único sitio desta casa onde me sinto bem, onde gosto de pensar, reflectir, ficar entre páginas e mais páginas de texto, livros e mais livros, navegar na internet fazendo o que tenho a fazer, é um meio acolhedor que me faz sonhar, apesar de o meu irmão não estar cá e de eu sentir a falta dele, eu gosto de estar só, no meu canto, sem que ninguém me incomode, a ouvir a musica de que eu gosto, a pensar na vida, nas minhas coisas, nas preocupações de um dia-a-dia de estudante, e não só, mas nem tu isso permites que eu faça … quantas mas quantas vezes eu já te gritei para me deixares só, (foram tantas que já nem me lembro)  eu implorava tanto mas tu, tu não o fazias mãe e eu tenho esse direito e sempre fiquei calado a ouvir o que me dizias, mas agora é a tua vez de ouvir e ficar calada se quiseres, se não quiseres podes falar para as paredes, pode ser que estas te compreendam, mas me tratar do forma que me tens tratado nos últimos tempos, já não posso mais,  cansa, estou tão farto, não posso viver com pessoas assim…como tu, mãe e pai, e os resto dos conservadores, homofóbicos, e mentes antiquíssimas desta família! Sim eu sou homossexual, uma dessas aberrações que vocês abominam, um desses "bichos" que tanto vos repugna e serve de matéria para piadas subtis, mas a culpa não é minha. Não é vossa. Nem de ninguém. Não é uma doença, não é erro de natureza. É algo que me acompanha deste sempre, é algo que desde cedo sempre soube mas que fui escondendo até que fui descoberto.

Ainda me lembro daquele dia como se fosse hoje, estava lá na escola quando me perguntaram “Qual é a tua orientação sexual?”, eu fiquei assustado com a pergunta, rodeado de pessoas, a insistência para saber era cada vez maior, não sabia o que dizer, poucas eram as respostas que me ocorriam na mente, também não eram assim tantas as opções de escolha, não se trata de marcas de carros ou algo do género. Incrivelmente e por mero acidentem, escapou-se da minha boca a palavra “Homossexual”, não queria que isso tivesse acontecido, não queria ter dito aquilo de forma nenhuma, mas não o pude controlar, foi algo sem explicação possível, e mais não pude fazer, queria ter dito heterossexual, mas o coração acabou por falar mais alto e fui sincero…ainda tentei dar a volta, desesperadamente, mas já não havia nada a fazer, aquilo estava dito, e já não o podia negar nem omitir tampouco. O curioso é que quando disse semelhante coisa tinha apenas uns 11/12 anos! A partir daí comecei a ser vitima de bullying constante e cada vez mais os anos demoravam a passar, era sofrimento atrás de sofrimento, que se foi acumulando, e acabei da pior forma, ia sofrendo em silêncio, eu não poderia contar à minha família sabendo como ela era, não tinha amigos, nem ninguém que me pudesse ajudar… então resolvi ficar calado e calado, até hoje, o dia que estão a ler esta carta, e vos explico o porque de eu ter sofrido de bullying e de ter andado tanto ano fechado para dentro, sempre deprimido e sem poder dar explicações do que se passava.
Vocês sempre quiseram saber o que eu fazia na Internet, com quem falava e eu dizia sempre que estava a falar com amigos e isso é a verdade, porque eu não falo com estranhos, mas há também outra coisa que eu faço, participo num fórum (local de debate) de uma associação nacional de apoio a jovens LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, trangéneros e simpatizantes) designada de “rede ex-aequo”, e é uma associação que se empenha na luta contra o preconceito, participa em várias entrevistas, faz diversos estudos e é reconhecida pela União Europeia. Hoje já não estou lá só para pedir apoio, mas também já passei por algumas coisas que me permitem apoiar os outros e isso deixa-me orgulhoso de mim mesmo, eu decidi que irei fazer a fundação do grupo local cá em Funchal, para ajudar quem mais precisa e dar apoio a todos os jovens LGBT da região. Para ser coordenador desse tal grupo é necessário eu frequentar uma formação no Continente, em Alvito (Beja), no dia 1,2 e 3 de Março de 2013, sei que muito provavelmente não me autorizam a ir, mas não vai ser por causa de vocês nem de outra pessoa qualquer que irá, me impedir de criar o grupo cá e vou quer aceitem quer não. No Verão a referida associação organiza um acampamento para jovens LGBT de todo o país com local ainda a definir, no mês de Agosto de 18 a 26, eu apresento um enorme interesse e vontade em ir. Qualquer duvida que vocês tenham também podem ver o site, vão lá encontrar muitas informações http://www.rea.pt
Não me dou com gente assim como vocês, não suporto estarem sempre, mas sempre constantemente a dizer mal das pessoas que são diferentes de vós… mas afinal, O que é que vos faz capazes de fazer tal acto? Será por se acharem todos ‘perfeitinhos’? E pensarem que mandam o mundo inteiro? Que indecência de gente, de família que eu tenho, embora com muita pena mas não há nada que possa fazer, todos pensam logo que as pessoas como eu não são iguais a todas as outras, pesam que não são pessoas, que não são sociedade nenhuma, não são nada, são simplesmente inexistentes (…) vocês têm na mente instaurado que é um pecado amar alguém do mesmo sexo, que é errado, que a pior coisa existente no mundo são as pessoas assim como eu e muitos outros por aí, … Mas que género de família é esta que eu tenho? Será sequer que eu vos posso chamar de família, será que o merecem depois das coisas quem têm-me atirado à cara, dia após dia, cada vez mais fico mais farto, mais e mais, cansado das vossas cenas…a nossa relação de pais para filho e filho para pais, é impossível de existir, vocês são os princípios da humanidade, e eu, eu sou o rapaz que tem uma mente de um adolescente americano muito para a frente, e chocamo-nos de tal forma que é impossível existir um meio-termo, mas não vos posso culpar inteiramente pela nossa não-relação pais/filho. Também eu tive culpa no cartório. Talvez eu fosse demasiado orgulhoso para admitir que eu também tenha errado, embora não achasse que era tão orgulhoso até certo ponto… Lá fora ao menos, eu podia trabalhar mesmo tendo 16 anos, enquanto aqui é praticamente impossível isso, e ganhar o meu próprio dinheiro, ainda me lembro do que o meu primo me disse o ano passado, que eu deveria arranjar um trabalho para o Verão? Eu queria muito, mas tu, tu mãe ficaste contra ele só por causa disso, não me deixaste de maneira nenhuma fazer aquilo que eu mais queria desde à algum tempo para cá. Não me deixaste também ter liberdade alguma, não me deixas sair com os meus amigos, sim eu tenho amigos, e amigas também, não pensem que apenas tenho amigos rapazes, (…) eu queria muito ter ido ao Porto Santo o ano que passou, mas tu não deixaste? Porquê? Eu ia estar com os meus amigos, eu preciso do meu espaço de manobra, apesar de todos me acharem criança, não, não sou. Sou uma pessoa diferente de muitos, mas o que me define de verdade, é não ter definição própria, é ter bastante coragem, uma força inesgotável para lutar contra o que me surgir pela frente. Eu necessito de ser livre, para poder concretizar o meu grande sonho, a minha lenda pessoal, preciso de liberdade, me proibirem e me retirarem as coisas não muda nada, só piora cada vez mais tudo, não é assim que devem agir. Como podem ser assim? Como podem chegar ao ponto de pensar que pessoas assim não merecem vida? Desde de quando se fazem juízos de valor a uma pessoa pela sua aparência? Juro, eu não compreendo, só apenas por um pequenino detalhe da pessoa, uma tatuagem, um mero brinco, gostar de pessoas do mesmo sexo, neste caso rapazes, algo intimo da vida de todos nós, …. Vocês e toda a sociedade envolvente, chegam a ser tão rudes para connosco, com pessoas como eu inclusive, pensam que é isso que nos define,  mas não, não e não. Isso não me define nem a mim nem a ninguém, todos nós temos sentimentos, somos pessoas como as outras, sofremos imenso e mais do que possam imaginar, não é propriamente o mais agradável de conviver com uma sociedade que nos olha com vergonha, nojo, medo… porém, nós temos algo que muitos procuram, coragem… se soubessem muitas das vezes o que me custa olhar para a vossa cara quando dizem mal de tudo e todos, não me dirigiam nem uma palavra… nós somos iguais a todos os seres humanos, só muda um aspecto, o nosso gosto, algo que já nasce connosco e que é verdadeiramente impossível de mudar, não pensem que isto é fase, que amanhã é o dia D e tudo muda, não é assim, isto de mudar no dia seguinte, não é possível, não é e ponto. Parece algo simples como, hoje carrego neste botão e amanhã serei outra pessoa, mas não é assim, que mentes erradas e tão fechadas, entaladas por pó e mofo, que ocupa todo o espaço que ainda lhes resta, nada anda para a frente, continua-se sempre no século que passou, no mesmo tempo antigo….com a mesma mente, o mesmo pensar, a mesma educação, e tudo isso faz-me ver que simplesmente nada mudou e que nada vai mudar, vocês são e vão continuar a ser assim, uns mentes retrógradas, e não vale a pena eu lutar por mudar isso, sei que é logo algo impossível desde já e  que não  vale o mérito  de eu fazer o mínimo esforço para lutar contra isso, pois vocês não se actualizam à realidade de hoje em dia, ao presente, estão presos num passado do qual fazem presente, nunca se habituarão às novas coisas que foram surgindo à medida que o tempo foi avançando. Aqui no meio disto tudo, a única pessoa que pode fazer algo sou eu, sim EU e sim é mesmo o que irei fazer, mesmo que me custe, mesmo que me magoe, mas está na altura de escolher o que é melhor para mim e sou a fazer essa escolha, não vocês meus pais e família, só tem de aceitá-la se quiserem, não obrigo ninguém a o fazer, que saiba ainda somos todos livres. de exprimirmos a nossa opinião e o que somos na realidade, eu pelo menos não vivo na época de Salazar, mas sim num presente muito real e com uma mente muito aberta, para a frente e não para trás como a vossa. Isto de eu gostar de rapazes, é apenas algo que já veio comigo desde o meu nascimento mas que vocês nunca irão compreender por ter uma mente dessas. Há imensa coisa que não percebo, por mais que me esforce, que gente são vocês?, quem são vocês? Expliquem-me desde que altura se passa a apreciar uma pessoa pela sua aparência, pelas suas intimidades, … bem só se é nos anos 60/70, que eu saiba as pessoas ainda valem por aquilo que são, pelo seu coração e sentimentos, não devem ser julgadas só porque têm uma tatuagem, um brinco, ou até por gostarem de uma pessoa do mesmo sexo, (….) tudo porque a vossa mente continua a achar que está errado, e continua lá bem presa sempre no mesmo passado. Sinceramente nunca pensei em dizer-vos isto, mas a realidade o permite fazer, eu não me sinto bem, sinto-me excluído, sinto que não pertenço a este pedaço de mundo cruel, sei que nunca vou ser aceite pela maior parte da porcaria de família que tenho, e sabem querem mesmo saber, eu sinto revolta, nojo, raiva, de conviver com gente assim! Sabem o que é viver uma vida por baixo de uma capa, fazer as coisas sem determinação nem amor, viver cada dia como se fosse apenas uma rotina e tudo estivesse destinado? Sabem o que é olhar à minha volta e não me sentir lá, sabem?

Então não digam para ter vergonha de ser quem sou, não digam que sou a vergonha da família, não digam que eu quero vos destruir e que mais valia eu pegar numa arma e… matar-vos aos dois, não me digam coisas sem nexo de se dizer a um filho, penso que depois disto, pouco ou nada vos importarei, além do mais eu já noto isso, querem lá saber de mim? Não, não querem e não me merecem porque se me merecessem não me diziam o que me têm dito. Mãe, acredita não vale a pena argumentares e me tentares dar a volta que enquanto estiveres viva, eu não vou ser quem sou porque tu não o vais permitir e porque não queres que eu seja assim, fica sabendo que nada disso é possível porque ninguém pode controlar uma coisa que já faz parte de mim desde sempre, não irás ser tu nem ninguém da família que vai-me impedir de ser feliz, não vou deixar que tal coisa aconteça! Não podes controlar o que eu sou, eu já nasci assim com esta característica… e não há nada que você possa fazer para mudar isso! Mãe, não busque o meu mano como pretexto para eu ser como quer, ele é inocente e não é culpado de nada, não invoques o nome dele, ele é meu irmão e não quero que o faças sentir culpado de eu ser assim como sou, não vale a pena dizeres que se eu tivesse respeito por ele… eu seria diferente! Também não digas que ando para aí a inventar doenças, para gastar o vosso dinheiro, pois tudo o que tenho sofrido ano após ano, ninguém faz a mais plena ideia, e tem-me custado tanto mas tanto. Eu sou assim como sou! E sinto-me bem e feliz, com um grande orgulho de mim, de ter tanta coragem e força para levar a minha vida em frente, com ou sem pais, sim já não aguento estar nesta casa durante mais tempo, tenho de passar uns tempos noutro sítio, estou exausto, não posso mais viver debaixo de um tecto em que todos os dias me atacam constantemente, preciso de recomeçar a minha vida, chegou a altura em que tenho de escolher entre e minha felicidade e vocês, mesmo tendo 16 anos, mas isso pouco importa, idade é apenas um número, a maturidade é sim o importante, apesar de reconhecerem que estou sempre numa criança, enganam-se muito bem enganados pode perecer que tenho mentalidade de criança, de pirralho, mas NÃO, eu sou um adolescente, já a caminho de adulto, e para que saibam desejava já ter os meus 18 anos, mas não tenho, infelizmente vou ter de tomar medidas, aqui não posso continuar mais, já atingi o meu limite me e não me interessa que a maior parte da família deixe de olhar para mim, de falar comigo, que passe por mim e faça que não me conhece, (…) não vai ser isso que me vai destruir ou deitar abaixo, eu tenho amigos/as verdadeiros e outras pessoas que me dão apoio e que sei que posso contar com elas, hoje, amanhã e sempre! Sei que com a vossa mente tão antiga e velha nunca me vão querer assim, sei que vão-me chamar toda a porcaria de nomes que existir, mas não me importo, também já não posso viver com vocês, não me sinto bem e não gosto, sinto a necessidade de estar só, de fazer as coisas sozinho e sim eu sei fazer as coisas, sei cozinhar, limpar, lavar a roupa, passar a ferro, as coisas básicas da lida doméstica…e já há cerca de um ano, que quero viver sozinho sem que ninguém me impeça de ser quem sou sem vergonha alguma, medo e sentimentos de culpa.

Não vou deixar de concretizar os meus sonhos, e sim é isso que vocês, meus pais estão a fazer, não me dão liberdade de ser quem sou e como sou, mas nunca o pude fazer por não ter razões suficientes e por ser menor, mas neste caso, tudo muda, trata-se do meu bem-estar emocional e pessoal, sei que não vou aguentar o ar pesado como tem sido nas últimas semanas desde que o novo ano começou! Não me importo nada de arranjar um part-time para ganhar algum dinheiro, mas vocês têm a obrigação de me sustentar, por lei enquanto estiver a estudar, até ao fim do meu curso, que isto fique bem claro, mas cá nesta casa eu não fico, não há volta a dar a decisão está mais que pensada e decidida, nada a irá mudar!
Mãe, não me diga que eu não posso nunca chegar aos seus calcanhares porque já os ultrapassei, já admiti aquilo que sou perante vocês e mais umas quantas pessoas, tenho uma grande coragem e força, vou fundar o grupo denominado de “rede ex-aequo funchal” para ajudar os outros jovens com situações parecidas com a minha e lhes dar apoio e um sitio onde se possam sentir bem sem homofobia, nem preconceito, sim não tenho vergonha nenhuma de dar a cara, ou de ser o “diferente” da família, e estou disposto a deixar esta casa, eu preciso mesmo de estar sozinho não são todos os adolescentes com 16 anos, que fazem o que eu vou fazer e, é preciso haver mesmo imensa força e uma enorme coragem, a maioria dos jovens LGBT na Madeira vive escondido, isto tudo por causa da porcaria de sociedade que temos, por nos maltratarem e por não sermos aceites, por sermos “a doença”, “ os bichos”, …. !
Por vezes as pessoas à nossa volta esquecem-se que existimos, esquecem que também sentimos, que somos humanos, que temos sentimentos, que sofremos, que custa ouvirmos tudo e ficarmos de boca fechada sem poder dizer nada, ficando a sofrer lentamente dia após dia no mesmo silêncio, na mesma rotina, sofrer, sofrer e sofrer….sem fim! Nós somos pessoas e que grandes pessoas, sei que não é bem qualquer rapazito por aí que se digna a escrever um texto como este com a intenção pretendida, em mostrar às pessoas que ‘somos todos diferentes, mas todos iguais’ diferentes em personalidade, gostos, preferências, … iguais enquanto seres humanos!
EU sempre mantive uma posição contra quanto ao preconceito e homofobia, foram cinco longos anos a ouvir coisas disparatadas que não eram direccionadas a mim, mas acabavam por me magoar também e acabei ficando sempre em silêncio, mas chegou a um dia em que não posso permitir que me tratem da forma que me tratam, sempre a mandar bocas a toda a hora, todos os dias, chega basta, sim sei que são os meus próprios pais mas não vou admitir que me façam sofrer desta maneira. Eu podia desistir de tudo sabem, podia borrifar-me para a escola, fugir do país, podia suicidar-se, querer desaparecer deste mundo de uma vez por todas, (…) podia fazer uma quantidade infinita de coisas, se … se fosse outra pessoa com outra personalidade, sim eu podia fazer isso tudo, tudo mas NÃO, NÃO E NÃO!

Eu sou assim como sou, gosto de mim e vou lutar pelo que tiver de ser, não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário até muito orgulho, não vou desistir, vou até onde for preciso para alcançar a minha felicidade, vou lutar por respeito e dignidade, por tudo…aquilo que pessoas iguais a mim desejariam todas ter. Vou lutar pela minha liberdade de ser feliz, acima de tudo, sem complexos, e sim SER FELIZ É MAIS IMPORTANTE DO QUE TUDO, os meus pais ou até a minha família, sim são a minha família, aqueles que me criaram desde pequeno, que lutaram pela minha sobrevivência e que não pude escolher, mas os amigos, os verdadeiros sim posso escolhe-los e fazer deles uma família. SIM QUERO SER FELIZ, e faço tudo o que tiver de ser para isso! O meu conceito de felicidade é bem diferente do vosso...
Existe por aí gente que nem merece respeito na cara, julgam, criticam, insultam, todos riem…mas na verdade, quem lhes dera que tivessem metade da dignidade que eu, e outros têm em serem assim, como são, em não terem medo de se assumirem e a estarem prontos a ultrapassar a vida desta forma, com força e coragem...porque isto de ser gay, bissexual, lésbica, não foi uma escolha, nem uma opção de vida tampouco! Foi sim uma mancha ou não, que nasce connosco!
Uma nova vida vou ganhar, vou ter outra, a minha própria vida sendo eu mesmo, mais uma experiência para acrescentar ao crescimento, não irei desistir daquilo que quero, espero que respeitem a minha decisão de querer ir morar para outro sítio, desistir é uma palavra que não existe me mim sempre ouvi dizer, “quem espera sempre alcança” e assim será comigo eu já esperei tempo demais, está na altura de ser eu mesmo, num sitio onde me tratem bem e me respeitem, a meu ver o respeito é acima de tudo independentemente do que a pessoa seja, o respeito pelos outros fica sempre bem, os meus pais não têm sequer tido isso por mim, uma regra tão básica da convivência humana e por essa razão vejo que eles não me merecem mesmo!

Fiquem cientes disto, só amarei de verdade um homem, eu sou homossexual e vocês como meus pais deviam aceitar e não me descriminar… mas sei que isso, nunca se vai concretizar... sei que sou o maior desgosto que já tiveram na vida, mas não me importo, eu não tenho que me sentir mal com o que sou só porque vocês  querem,  vocês é que estão a errar, a descriminar o vosso próprio filho, não vou chorar mais por vossa causa nem me irão magoar mais como já fizeram até hoje.

Pai, mãe lamento se destrui os vossos sonhos, os vossos desejos, as vossas expectativas, a vossa vontade de ter um filho "normal", mas eu preciso demasiado de ser feliz para poder abdicar daquilo que sou. Sim, vocês continuam a ser meus pais independentemente de tudo, mas apenas não consigo estar a residir e a conviver com vocês, vou ter mesmo de sair…mas só exijo uma coisa: respeito!
Sei que é difícil aceitar que não vão ter netos de sangue, mas quem sabe não terão um neto adoptivo ... sei que é difícil aceitar que o vosso bebé cresceu, e que devido ás suas decisões e escolhas pode ser prejudicado no futuro, mas está na altura de decidir o que acho mais favorável para mim mesmo, sem que ninguém interfira nessa mesma escolha, nesta situação em relação ao  meu futuro e à minha forma de viver a vida.

Mas para que saibam, por vezes não temos escolhas, tal como não é uma opção num heterossexual crescer, casar e ter filhos, netos, etc, também não é opção num LGBT crescer, amar e  ser amado por alguém do mesmo sexo, esconder da sociedade, ser rejeitado por quem não compreende, envelhecer junto da pessoa que ama, não podendo oficializar a relação ou partilhar com todos, tal como os heterossexuais fazem.
Por vezes comparo uma relação homossexual á história de Romeu e Julieta, pois perante a sociedade e os seus costumes e preconceitos são os dois "amores impossíveis", mantidos às escondidas, não por ser incesto ou pedofilia, mas porque a sociedade simplesmente não olha para lá do chamado "normal", em vez de se focar na felicidade das pessoas, foca-se apenas na ordem natural. Vergonha é eu viver constantemente com gente que me olha com nojo! Só porque quero ser feliz, já deixaram de fazer alguma coisa só por não quererem ser diferentes dos outros?
 A única coisa que vos peço é que respeitem estes parágrafos que tão dificilmente saíram de todo este silêncio de anos, e que custaram imenso a escrever-se!
Há diferentes formas de ser, há diferentes formas de amar!
Do vosso filho que vos ama, e sabe que o amam se o amarem sempre, mesmo depois desta carta.

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