sexta-feira, 22 de novembro de 2013 - 2 comentários

Memórias de uma infância...



Eu neguei a minha sexualidade desde muitos anos, nunca quis ver aquilo que realmente eu era. Foram cerca de uns 5 anos, aos 12/13 anos já comecei a perceber...que havia algo de diferente em mim e que não eram as raparigas que me atraiam mas sim os rapazes me atraiam... Ao início achava isso anormal.. (como todos acham) e não conseguia entender nada daquilo que eu sentia...visto não conhecer ninguém assim com os mesmos sentimentos que eu até à altura! Voltando atrás no tempo, já na minha infância dei os sinais que era um rapazinho "diferente" dos outros, eu andava praticamente em bicos de pés e com o braço para cima, e agora apercebo-me que esses pequenos sinais se deviam a ser homossexual no meu caso, (de forma alguma estou a dizer que isso faz parte da homossexualidade ou que é um factor que dita que uma pessoa é ou não). Apenas, acho que no meu caso se adequam por vezes os maneirismos, a forma de falar, alguns gestos e coisas assim. Mas, só que a minha família na altura da infância não prestou muita atenção, julgando minha mãe isso serem apenas sequelas da paralisia que tive. (Claro que aos poucos fui melhorando e melhorei bastante até o dia de hoje, hoje considero-me um herói, pois se não tivesse aquela força divina, a persistência, e garra para lutar, o destino traçado dentro de mim. O plano traçado pelos médicos que me acompanharam foi o seguinte: eu podia não falar, andar, ouvir, ver, mas felizmente as sequelas foram mínimas e evolui bastante, consigo andar, falar, ouvir, ver - tudo como uma pessoa normal, tenho bons resultados escolares, não fiquei afectado na parte da memória nem nada disso. Apenas na parte motora nomeadamente na perna direita ter a tendência para a puxar ligeiramente quando ando. Ao inicio estava muito pior, consegui evoluir e recuperar bastante... Estive várias vezes entre a vida e a morte e não foi nada fácil de estar cá hoje no mundo, vivo, sobrevivi a muito custo e graças à minha pediatra que me salvou e me deu vida!)

Na altura dos meus 13 anos a minha família já fazia comentários homofóbicos contra pessoas assim como eu, ai fui-me apercebendo da realidade que vivia... E por isso guardei o segredo durante 5 anos, até os 16 .Com o passar dos anos aos 16 as coisas clarificaram-se e decidi sair do armário e assumir-me (em Dezembro de 2012) ...e não negar mais a minha verdadeira sexualidade perante os outros e passei a ser eu mesmo sem problemas nenhuns (o problema foram mesmo as outras pessoas...o problema não somos nós (eu) mas sim os outros.)

Segundo a minha tia (que me aceita, compreende e tem-me dado algum apoio nos últimos tempos) diz que a imagem que passa da "nossa família" para fora é outra... Mas que ela percebe que as coisas não estão nada bem. Ela acabou por se afastar um bocado de mim para não ter problemas para lado dela... (É compreensivo dada a mentalidade dos meus pais)
E a minha mãe nunca nunca mais disse a ela e à minha prima como antigamente quando elas saiam para me levarem a sair com elas...
Infelizmente o que a minha tia me diz é que as coisas são bastante complicadas e que vou ter esperar pelos dezoito anos e ir me aguentando... ela infelizmente já não pode fazer mais nada por mim dado o facto que não pode tomar uma posição (ficar do meu lado ou do dos meus pais) sabendo como as coisas são com a mentalidade dos meus pais. Esses dois seres colocam sempre as culpas nos outros, nunca neles!

Eu agora venho a relembrar-me que tive uma infância muito triste e fechada os meus pais faziam de mim coitadinho, não me socializar, interagir com as pessoas, não brinquei nem interagi com os meus primos(as), nem com as tias(os) os meus pais me deixavam estar/falar! E quando eu tinha um problema (estava doente por exemplo), e me perguntavam o que eu tinha era sempre mas sempre a minha mãe que falava por mim, nunca me deixou expressar livremente, ter liberdade sequer para tal. O mesmo em relação ao vestuário... se eu dizia que queria vestir uma camisola amarela... ela tinha a mania e tinha lá eu de vestir a roupa que ela escolhesse mesmo não gostando, não podia vestir outra qualquer que me agradasse.

E, eu até hoje nunca tive um amigo verdadeiro (tinha pessoas apenas que só se faziam de amigas por mero interesse a fim de obter algo de mim), os meus pais não gostavam nunca (ainda hoje é assim) que me desse com a minha tia e primas, e outras pessoas... Eu sou assim muito fechado, tímido, não consigo fazer amizades, ... porque fui educado assim e a culpa é deles, e inteiramente deles!
Eu quando tinha 12 anos já me chamavam de "gay", mas nessa altura ainda estava estava muito "verde" e ninguém deixava que eu me exprimisse portanto com o passar do tempo comecei a ficar doente, e cada vez mais... Fiquei com raiva, revolta, (ainda a tenho) e uma depressão grande...

A minha tia e prima já tentaram fazer por mim o que podiam mas sem efeito dada a cabeça dos meus pais...nada resultou! Eu não sou de dar "o braço a torcer" e tenho a quem saia, a minha mãe também é assim... De facto, a minha mãe já precisa de ajuda por causa da cabeça dela, porque as atitudes que ela tem para comigo não são nada boas! A minha tia ficou pasmada e custou-lhe a acreditar quando lhe disse os termos que a minha mãe usava quando falava comigo, do tipo, ela fala-me assim (só por não me apetecer comer o jantar, que era uma porcaria e eu não gostava): " Ah se o paneleiro te diz para nos fazeres a vida negra ele que meta o dedo no olho do cu."
Sinceramente, fico completamente passado quando uma mãe diz ao seu próprio filho uma coisa destas ou pior, apetece-me tanto dar-lhe uma valente chapada quando ela diz isso! Uma própria mãe dizer isso a um filho não se faz... podia ser a pessoa pior do mundo, mas isto são das coisas que não se deve dizer a quem quer que seja. Infelizmente, ela trata-me com esses termos mas depois para ficar bem, pela frente e com as outras pessoas desmente tudo, é preciso ter cá uma lata, sinceramente...

Ainda me lembro quando era mais pequeno ia para casa da minha prima jogar SIMS 1 e que ia dormir com a minha prima quando ela vinha de férias quando estava na universidade para matar as saudades... belos tempos tenho cá umas saudades desse tempo, infelizmente o tempo não volta atrás Ao menos nesses tempos não tinha as preocupações que tenho hoje, e toda a gente gostava de mim!

Os meus pais só querem que eu saia (à noite) aos 18 porque dizem se eu sair agora os meus pais é que pagam ( no sentido se houver confusão e eu me meter em porcarias eles é que respondem por mim por eu ser ainda menor de idade) as asneiras que faço (onde eu não faço asneiras nenhumas, nem sou de armar confusão) É um horror eles pensarem assim! Sim já sai algumas vezes, mas teve de ser à força, à pressão e um bocado contra a vontade deles.
Numa noite, a primeira em que sai, disse que ia sair à minha mãe e ela sempre "Não vais, não e não..Vem para casa e ponto final que eu vou trabalhar à noite"o... mas eu insisti tanto, acabei por sair... depois começou toda a gente a me ligar vezes sem fim e eu nunca atendi, a bateria do telemóvel foi-se gastando e por fim o telemóvel acabou por se desligar, mas antes disso a minha mãe ligou-me e do outro lado gritou-me: "Onde andas? Estas com quem? Vai já para casa que o teu pai esta preocupado contigo...ameaçou que ia pôr a polícia à minha procura... e que eu estava a fugir de casa e bla bla." (mas não aconteceu nada disso.)
Desde 31 de Maio nunca mais sai a noite nem me diverti, também não tenho tido com quem sair, por acaso tive um primo que me convidou para umas festas, mas isso ficava do outro lado da ilha e não tinha meio de como ir, por isso fiquei por casa no computador como sempre...

Às vezes até deixo de falar com as pessoas a ver se elas sentem realmente a minha falta... e são raras as vezes que as pessoas metem conversa comigo (rapazes ou raparigas), foram bem poucas as pessoas até hoje que vieram falar comigo via internet ou pessoalmente... caso contrario tenho de ser sempre eu a falar com as pessoas, por exemplo tenho amigos do teatro, mas eles ligam-me pouco e tal... se eu quiser falar tenho de ir ter com eles. Já pensei: "Será que mudei?", bem acho que não mudei, bem quer dizer talvez um pouco, com as coisas todas que já se passaram na minha vida, tornei-me uma pessoa, mais fechada, mais fria, distante, sem paciência, com humor as vezes irritativo, ... Quem me dera que entendessem, era mesmo bom... quem sabe talvez um dia!

Um coisa que ainda me magoa e faz-me impressão é ter perdido o meu irmão à nascença e desejava muito que ele estivesse aqui comigo, ao menos tinha talvez quem me confortar e apoiar quando os meus pais e família me fazem o que fazem!

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